O Fardo do Executivo, o Prazer do Inconsciente.



No nosso último folhetim, exploramos como o que parece um fardo — a alta performance extenuante — pode, na verdade, ser um prazer camuflado. Mas de onde vem essa motivação tão poderosa? A psicanálise nos ensina que nem todo prazer é óbvio. Existem pulsões e desejos inconscientes que nos levam a buscar a superação e o reconhecimento, gerando uma satisfação profunda que pode ser confundida com obrigação.

Como aponta o renomado neuropsicanalista Mark Solms, as emoções e os estados mentais estão intrinsecamente ligados aos nossos sistemas de recompensa no cérebro. O prazer não é apenas o alívio da dor, mas também a satisfação de uma busca, a conquista de um objetivo. Entender essa dinâmica é o primeiro passo para resgatar o equilíbrio emocional sem perder a ambição.

No universo da alta performance, o executivo carrega um fardo pesado: decisões estratégicas, metas audaciosas, pressões constantes e a incessante demanda por resultados. A mente consciente está em alerta máximo, navegando por um mar de informações, prazos e responsabilidades. Essa vigilância contínua, embora necessária, pode levar ao esgotamento, à ansiedade e a uma desconexão com o bem-estar genuíno.

Mas e se houvesse um refúgio? Um vasto território dentro de nós, onde as pressões se dissolvem e um tipo diferente de "prazer" emerge? Esse é o domínio do inconsciente.

O que o fardo do executivo muitas vezes obscurece é que a mente não é apenas razão e lógica. Nosso inconsciente, essa dimensão de nossa vida psíquica, é um manancial de prazer, criatividade, sabedoria e insights que opera silenciosamente, mas com um poder imenso. Diferente do prazer consciente, muitas vezes ligado a recompensas externas e efêmeras, o "prazer do inconsciente" se manifesta em sensações de fluxo, inspiração repentina, insights que resolvem problemas complexos durante um momento de relaxamento, ou na simples e profunda satisfação que vem de estar verdadeiramente conectado consigo mesmo.

A neuropsicanálise nos mostra que o inconsciente não é um mero repositório de memórias reprimidas, mas um sistema dinâmico, pulsante de vida. Ele se comunica através de lapsos, intuições e, crucialmente, através da nossa capacidade de inovar e de encontrar soluções quando a mente consciente está "desligada". Permitir-se acessar essa dimensão é como dar férias à parte sobrecarregada da mente e ativar um motor de criatividade e bem-estar que funciona em segundo plano.

Como o executivo pode se reconectar com esse prazer do inconsciente?

Não se trata de abandonar o fardo, mas de equilibrá-lo:

  1. Pausas Estratégicas: Além do descanso físico, permitir que a mente divague em atividades não estruturadas – uma caminhada na natureza, ouvir música, observar o céu. Esses momentos abrem portas para o processamento não-consciente e a emergência de novas perspectivas.

  2. Otimização do Sono para o Processamento Mental: Reconhecer a importância do sono de qualidade não apenas para a recuperação física, mas como um período crucial para a restauração dos processos mentais. O sono auxilia na retenção na memória de assuntos relevantes e que foram repetidos, o que contribui para que novas conexões neurais ocorram e facilite a criação de novas ideias. Um sono reparador é um investimento na clareza mental e na capacidade de resolver problemas.

  3. Atenção aos Sinais Sutis (com Apoio Profissional): Desenvolver a capacidade de reconhecer padrões e informações que são processadas rapidamente pelo cérebro, sem que cheguem à consciência plena. Essa sensibilidade aos "sinais internos" pode guiar decisões ágeis e eficazes, complementando a análise de fatos e dados com uma inteligência mais integrada. É importante ressaltar que, muitas vezes, o apoio de um profissional qualificado pode ser crucial para auxiliar na identificação e interpretação desses padrões internos.

  4. Atividades de Fluxo: Engajar-se em hobbies ou atividades que nos absorvem completamente, onde a noção de tempo se perde. Nesses estados de "fluxo", o inconsciente opera livremente, gerando profundo prazer e renovação mental.

Integrar o "prazer do inconsciente" à rotina do executivo não é um luxo, mas uma estratégia inteligente para sustentar a alta performance sem se esgotar. É a arte de nutrir a mente por dentro, permitindo que a criatividade floresça e que o fardo se torne mais leve, revelando uma fonte inesgotável de bem-estar e insights para a liderança.

No entanto, essa busca por equilíbrio e prazeres inconscientes nem sempre é um caminho suave. Muitas vezes, é a voz implacável da autocrítica que se interpõe, pavimentando o caminho para o esgotamento. No próximo folhetim, mergulharemos profundamente na autocrítica, desvendando como essa voz interna, que deveria ser aliada, pode se tornar o maior adversário da nossa saúde mental.

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